CAPÍTULO 16
O REI ÁGRIPA VEM A ROMA E, TENDO SABIDO DO PRÓPRIO CAIO QUE ELE QUERIA MANDAR COLOCAR SUA ESTÁTUA NO TEMPLO DE JERUSALÉM, DESMAIA. DEPOIS DE SE TER REFEITO DAQUELA FRAQUEZA E DO ESPANTO QUE SE LHE SEGUIU, ELE ESCREVE PARA O PRÍNCIPE.
Pouco depois, o rei Agripa chegava sem de nada saber, nem da carta de Petrônio, nem da resposta de Caio e quando foi saudá-lo, não teve dificuldade em perceber pela maneira como o recebeu, que ele ardia de cólera em seu coração. Procurou recordar-se para ver se havia feito alguma coisa que lhe pudesse desagradar e nada encontrando, julgou, como era verdade, que não era contra ele, mas contra algum outro, que ele estava irritado. Entretanto, notando que aquela agitação lhe transparecia no rosto, quando olhava para ele, seu temor continuava e muitas vezes vinha-lhe à mente perguntar-lhe a causa, mas continha-se, de medo de atrair sobre ele por uma imprudente curiosidade, a cólera que o soberano podia ter contra outros.
Como ninguém mais que Caio penetrava o pensamento dos homens, ele logo percebeu o temor de Agripa e disse-lhe: "Quero vos esclarecer o que desejais saber. Vós me conheceis muito bem para ignorar que eu não falo menos com os olhos do que com a língua. Os homens de bem de vossa nação são os únicos de todos os homens que não me querem reconhecer como deus e que parecem correr voluntariamente para sua ruína, pela recusa em obedecer à ordem que dei, de colocar no seu Templo a estátua de Júpiter. Eles se reuniram de todas as cidades e dos campos para vir a mim, aparentemente, como suplicantes, mas para demonstrar-me na realidade o desprezo que têm por minhas ordens". Ele queria continuar a falar, mas Agripa, tocado de uma dor violenta, retirou-se para cair, desmaiado, se não o tivessem amparado. Levaram-no ao seu apartamento e ele ficou por muito tempo sem conhecimento algum.
O estado em que se encontrava o príncipe aumentou ainda mais a ira de Caio contra nossa nação. "Se Agripa”, dizia ele, "que sempre tanto me amou e que me deve tantos benefícios, tem tão forte amor aos costumes de seu país, que não pôde suportar que a eles se desobedeçam, por pouco que seja, pois o que eu lhe disse parece custar-lhe a vida, que deverei esperar dos outros judeus, aos quais nenhuma consideração leva a renunciar, para inclinar-me, eu aos seus sentimentos?"
Durante todo o resto do dia e uma parte do dia seguinte, Agripa caiu em tal delírio que não podia voltar a si. Por fim, à tardinha, ele ergueu um pouco a cabeça e abrindo os olhos, com grande dificuldade, lançou-os sobre os que estavam em redor dele, mas não os reconheceu. Recaiu depois em seu desmaio. Sua respiração, porém, era mais livre. Algum tempo depois ele despertou, dizendo: "Onde estou? E em casa do imperador? Ele está presente?" "Coragem, senhor", responderam-lhe, "estais em nossa casa, e o imperador não está aqui; dormistes demais; despertai agora, por favor, e fazei algum esforço para nos reconhecer. Somos aqui todos amigos, vossos domésticos, vossos libertos, que vós amais e vos amam mais que a própria vida". O soberano, então, voltou a si e percebeu em seus rostos a impressão que seu mal lhes tinha feito no coração. Os médicos mandaram sair a maior parte dos que estavam no quarto, para lhe dar algum remédio e alimento. Ele, então, disse: "Não penseis em me dar alimentos delicados. Basta-me na aflição em que estou, que me impeçais de morrer de fome. Eu não me poderia mesmo resolver a comer, se não me restasse alguma esperança de ajudar minha nação em tal e tão grande desgraça". Acompanhou estas palavras com lágrimas, tomou somente o que lhe era absolutamente necessário para manter a vida, e não quis mesmo permitir que lhe misturassem uma só gota de vinho na água que ele bebeu. "Deram ao meu corpo”, disse depois, "o que ele precisava apenas para não morrer, que me resta agora, senão fazer todo o esforço possível junto do imperador, para procurar demovê-lo dessa grande tempestade?" Pediu então tabuinhas e escreveu esta carta ao príncipe.
"O respeito e o temor impediram-me, de me apresentar diante de vós. O brilho de vossa majestade me deslumbra e vossas ameaças me assustam. Uma carta vos exprimirá melhor minha mui humilde oração, mais do que eu poderia fazer de viva voz. Sabeis, grande príncipe, que a natureza gravou no coração de todos os homens um ardente amor pela pátria e uma singular veneração pelas leis que eles receberam de seus antepassados, como vós bem manifestais por vossa afeição por uma e pelo cuidado que tomais em fazer observar as outras. Essa inclinação que nasce conosco é tão forte que não há povo ao qual suas leis não pareçam justas, embora não nos sejam de fato, porque delas se julga mais pelo respeito que se lhes tem do que pela razão. "Bem sabeis, senhor, que eu sou judeu, nascido em Jerusalém, onde está esse santo Templo, consagrado em honra do Deus Todo-poderoso. Eu tive por antepassados os reis desse país. Alguns deles foram soberanos sacerdotes e estimaram mais essa dignidade do que a própria coroa, porque estavam persuadidos que tanto quanto Deus está acima dos homens, tanto o sacerdócio está acima do trono; as funções de um têm por objeto as coisas divinas, ao passo que o poder que o outro dá só se refere às coisas humanas. A esse respeito, sem citar exemplos estrangeiros, eu tratei, senhor, outros que vos são sabidos. "Quando Marco Agripa, vosso avô, quis, para homenagear o rei Herodes, meu avô, ir à Judéia e passar do mar a Jerusalém, ficou tão comovido com a magnificência do Templo, com seus ornamentos, com as diversas funções dos sacerdotes, suas vestes e principalmente as do supremo sacerdotes, resplendente de majestade, com a ordem que se observa nos sacrifícios, com a piedade e com tudo o mais, bem como com o respeito com o que todos o assistem, que não pôde deixar de manifestar a sua admiração. Ele sentia tanto prazer em considerar estas coisas que não se passava um dia sequer, enquanto ele esteve em Jerusalém, que lá não voltasse para apreciá-lo. Ele ofereceu ricos presentes a esse Templo e concedeu aos habitantes daquela grande cidade tudo o que poderiam desejar, exceto a isenção dos tributos. Herodes, depois de lhe ter prestado todas as honras possíveis e de ter igualmente dele recebido outras tantas, acompanhou-o ao seu embarque e o povo vinha também de todas as partes, atirar ramos de árvores e flores à sua passagem abençoando-o, muitas vezes. "Não é também, senhor, coisa sabida de todos, que o imperador Tibério, vosso grande tio, durante os vinte e três anos de seu reinado, teve a mesma estima pelo nosso Templo, sem permitir que lá se fizesse a menor modificação na ordem que se observa? Quanto a isso, embora tanto ele me tenha feito sofrer, eu não poderia deixar de referir um fato que lhe mereceu grandes elogios e eu sei que sentis prazer em saber da verdade. Pilatos, então governador da Judéia, consagrou-lhe, no palácio de Herodes em Jerusalém, uns escudos dourados, não tanto pelo desejo de honrá-lo, como por seu ódio contra nossa nação. Não havia figuras nesses escudos, nem inscrição alguma, a não ser o nome daquele que o consagrava e o daquele ao qual era consagrado. Entretanto, o povo revoltou-se de tal modo, que enviou os quatro filhos do rei, os outros príncipes da casa real e os mais ilustres de sua nação, para rogar a Pilatos que mandasse retirar os escudos, porque era uma desobediência às leis e aos costumes de seus antepassados, nos quais seus reis e imperadores jamais tinham querido tocar. Vendo que Pilatos, que era de natural violento e teimoso, recusava-o grosseiramente, disseram-lhe: 'Deixai de perturbar a paz de que gozamos. Deixai de nos querer levar à revolta e à guerra. Não é pelo desprezo das leis que se honra o imperador. Vós tendes necessidade de um outro pretexto para disfarçar um empreendimento tão injusto e que nos é intolerável, pois esse grande príncipe está muito longe de querer que se desobedeça às nossas leis e costumes. Se tendes alguma determinação, alguma carta e alguma outra ordem dele, que vos autorize a fazê-lo, mostrai-no-lo, e mandaremos embaixadores a ele, para apresentarem humildemente nossas razões'. Estas palavras irritaram ainda mais a Pilatos e ao mesmo tempo causaram-lhe grande aflição porque ele temia, se se mandassem embaixadores, que eles informassem o imperador de suas concussões, de suas injustiças e de sua horrível crueldade, que fazia sofrer tantos inocentes e custava mesmo a vida a vários. Em tal agitação, esse homem tão duro e tão colérico não sabia que partido tomar. Não ousava retirar os escudos já consagrados e mesmo que o tivesse feito, não se podia decidir a causar um prazer e um favor ao povo; conhecia o espírito de Tibério. Os que intercediam pelos judeus julgando que, ainda que dissimulasse, ele se arrependeria do que tinha feito, escreveu a Tibério uma carta muito insistente e muito respeitosa; não há necessidade de outra prova da cólera que sentiu contra Pilatos, do que depois de lhe ter manifestado sua indignação pela resposta que lhe deu; no mesmo instante ele mandou retirar os escudos e levá-los ao Templo construído em Cesaréia, em honra de Augusto, o que se fez. Assim, prestou-se o devido respeito ao imperador e não se desobedeceu às nossas leis e aos nossos costumes. Não havia, entretanto, figura alguma naqueles escudos, e agora trata-se de uma estátua. Aqueles escudos só tinham sido colocados no palácio do governador: e quem colocar essa estátua no Templo, no mesmo santuário, lugar santo, no qual somente o soberano sumo sacerdote pode entrar e somente uma vez por ano, depois de um jejum solene, para queimar perfumes em honra de Deus, e pedir-lhe por preces humildes que faça feliz a todos, aquele ano. Se algum outro, não somente de nossa nação, homem qualquer, mas sacerdote, sem excetuar aquele que ocupa o mais alto cargo, depois do sumo sacerdote, ousa lá entrar ou se o sumo sacerdote, ele mesmo entrassem duas vezes no ano, ou três ou quatro, no dia em que lhe é permitido entrar, isso lhes custaria a vida e ninguém lhes poderia alcançar o perdão, tanto o nosso legislador expressamente ordenou que se reverenciasse aquele lugar santo e o tornasse inacessível. A esse respeito, sem citar exemplos estrangeiros, eu tratei, senhor, outros que vos são sabidos."